Brasília, terça-feira, 24 de março de 2026 - 15:2
Sem aliança ampla, a derrota é certa no DF
Por: Marcos Verlaine*
Sem convergência real entre esquerda, centro e dissidências da direita, a oposição corre o risco de assistir à consolidação de hegemonia conservadora no coração do poder.
Construir campo de oposição organizada e competitiva. Esta deve ser a premissa para derrotar o bolsonarismo no Distrito Federal, que chega a 2026 sob forte influência desse segmento da política brasileira.
A articulação em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mantém densidade eleitoral e capacidade de mobilização. Agora ainda mais ancorada em candidaturas com apelo popular e simbólico, como Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL) ao Senado.
Essa engrenagem política não opera isoladamente. Essa se conecta ao governo local, com a vice-governadora Celina Leão (PP) projetada como candidata ao Buriti, compondo bloco que mistura bolsonarismo ideológico e pragmatismo administrativo.
O resultado é um “consórcio” competitivo, com capilaridade social, presença institucional e narrativa coesa.
Nesse cenário, a direita tradicional — representada por figuras como Ibaneis Rocha — corre o risco de ser absorvida ou neutralizada. O bolsonarismo não apenas disputa o poder: esse reorganiza o campo conservador à sua imagem.
Fragmentação progressista como ativo do adversário
Do outro lado, a esquerda ainda patina naquilo que deveria ser seu ponto de partida: a unidade. As pré-candidaturas de Leandro Grass (PT) e Ricardo Cappelli (PSB) revelam vitalidade, mas também dispersão.
Essa fragmentação cobra preço alto. Em ambiente de disputa apertada — com sinais de empate técnico entre campos ideológicos — dividir forças é, na prática, transferir vantagem ao adversário.
A história recente do DF mostra que projetos competitivos exigem mais do que identidade programática: exigem coordenação política.
A sustentação ao governo Lula (PT), por si só, não resolve o problema local. Sem tradução concreta em alianças amplas no território, o capital político nacional tende a se diluir e, por conseguinte, se dispersar.
Centro e centro-direita não são acessórios são decisivos
A premissa central é incontornável: não há vitória possível sem transbordamento para além da esquerda. E isso implica dialogar com o centro e até com setores da centro-direita, que não se reconhecem no radicalismo bolsonarista.
Partidos como MDB e PSD, além de lideranças pragmáticas da política local, podem funcionar como fiadores de governabilidade e ampliadores de base social.
Mais do que isso: podem ser o ponto de inflexão em eleição decidida por margens estreitas como será a de outubro próximo, como foi a de 2022.
O isolamento progressivo de Ibaneis Rocha (MDB) é sintomático. Esse indica que há espaço em disputa dentro do campo conservador. E esse espaço pode ser ocupado por articulação inteligente da oposição, desde que haja disposição real para pactuar.
Frente ampla não é retórica é método
Falar em frente ampla tornou-se lugar-comum. O desafio é transformá-la em método político concreto. Isso passa por 3 movimentos simultâneos:
1. Síntese programática: construir agenda mínima que dialogue com segurança pública, mobilidade, emprego e custo de vida. Estes são temas que estruturam o voto no DF;
2. Pacto de lideranças: superar projetos pessoais em nome de candidatura viável e competitiva; e
3. Estratégia eleitoral integrada: alinhar majoritária e proporcional, especialmente mirando a renovação da Câmara Legislativa do DF.
Sem isso, a frente ampla corre o risco de ser apenas palavra de ordem; incapaz de enfrentar coalizão adversária que já opera de forma coordenada.
Risco de 2026 e janela de oportunidade
O paradoxo do DF é claro: ao mesmo tempo em que o bolsonarismo demonstra força, há sinais de saturação dessa lógica política mais radical.
Isso abre uma janela — estreita, mas real — para alternativa que combine moderação, eficiência e compromisso democrático com o DF.
Mas essa janela não ficará aberta indefinidamente. Se a oposição insistir na fragmentação, o mais provável é a consolidação da hegemonia conservadora se consolidar, com baixa contestação.
Unir para existir ampliar para vencer
A equação é simples, ainda que politicamente difícil: a esquerda precisa se unir para existir como força competitiva e, a partir daí, ampliar para vencer.
Sem isso, o “consórcio bolsonarista” não apenas não será derrotado: esse será reafirmado e fortalecido.
No Distrito Federal, onde se decide muito mais do que governo local, 2026 será também teste de maturidade política.
Ou se constrói maioria, ou se assiste à sua construção pelo adversário.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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