Brasília, terça-feira, 24 de março de 2026 - 17:32
Atlas da Escala 6x1 define padrão “de regime de vida baseado na exaustão”
Dados de mais de 34 milhões de trabalhadores apontam excessos e os reflexos negativos da jornada acima de 40 horas. Com salário médio que não acompanha o custo de vida, jornadas ampliadas são imposição na luta por sobrevivência, o que pesquisadores chamam de “roubo estrutural do tempo de vida”
Os dados são do Atlas Comentado da Escala 6x1 e foram apresentados à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da Câmara dos Deputados, nesta terça-feira (24), durante a 2ª audiência pública sobre o fim da escala 6x1 de trabalho.
O foco da reunião foi a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).
Representante da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Márcio Ayer Correia de Andrade apresentou o estudo e explicou que o modelo de contratação praticado define padrão.
“Não estamos, aqui, falando de jornada, mas de regime de vida baseado na exaustão”, afirmou o dirigente sindical.
Segundo o Atlas, a realidade vivida pelos trabalhadores é a seguinte:
67% recebem até 1 salário mínimo e meio (R$ 2.431,50).
33% gastam mais de 1 hora e 30 por dia em deslocamento.
mais de 50% sofrem pressão ou assédio.
67% trabalham além da jornada contratada.
88% têm impacto negativo na vida pessoal.
O resultado do cruzamento dos dados com o custo de vida médio reforça a insustentabilidade do modelo. Segundo Márcio, isso explica elemento central.
“A ampliação da jornada não é escolha. É imposição econômica baseada na extração máxima do lucro”, afirmou.
Analisados em conjunto, baixo salário, jornada extensa e deslocamento, fica compreendido que o trabalhador é forçado a dedicar todos os dias de vida ao trabalho. É o que os pesquisadores chamam de “roubo estrutural do tempo de vida”.
Perfil de quem sustenta o regime 6x1
O Atlas analisou informações de mais de 34 milhões de trabalhadores formais com jornadas acima de 40 horas semanais e ouviu mais de 4.500 trabalhadores em todo o Brasil.
A presença de jovens negros periféricos é predominante nesse regime de trabalho. Cerca de 63% dos trabalhadores são pretos e pardos.
Mulheres negras dominam o atendimento em caixas, com quase 90% de ocupação dos postos.
“A escala 6x1 não é neutra. Ela organiza a desigualdade no País”, detalhou o representante da CTB.
Precarização e acúmulo de violações
O estudo também analisou a soma de denúncias recebidas de 2015 a 2025 pelos comerciários do Rio de Janeiro. Os relatos revelam o acúmulo de violações ao longo dos anos.
Trabalho aos domingos e feriados, jornadas prolongadas e falta de intervalo para descanso aparecem no topo das reclamações. Há casos de trabalhadores que realizaram atividades por 10 a 15 dias consecutivos, sem descanso.
A exigência de presença frequente, sustentando o funcionamento integral e contínuo de empresas, representa a consolidação de um sistema que, segundo Márcio Andrade, produz adoecimento sistemático.
“Estamos diante de um regime estável de intensificação e superexploração do trabalho”, concluiu, destacando que o problema central dos trabalhadores na atualidade é o controle do tempo.
Solucionar requer revisão da jornada, garantia real de descanso e limites ao funcionamento contínuo.
O Atlas Comentado da Escala 6x1 é fruto de parceria entre Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Observatório do Estado Social Brasileiro e Trama (Associação Trabalho, Rede, Acompanhamento e Memória). Leia o documento na íntegra
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