Brasília, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026 - 15:59
Quando a traição vira sentença de morte
Por: Marcos Verlaine*
Itumbiara expõe a violência vicária e o machismo que insiste em culpar mulheres por crimes de homens.
Para iniciar o debate para além dos preconceitos, moralismos e machismos. A tragédia não nasceu da traição. Nasceu da posse. Aí se insere o caso de Itumbiara (GO), neste fevereiro, que não é apenas episódio trágico de violência familiar.
É retrato brutal de cultura que ainda confunde amor com domínio, casamento com propriedade e masculinidade com controle.
Um homem, ao descobrir a traição, matou os próprios filhos e se suicidou. Nada, absolutamente nada, pode ser explicado — muito menos justificado — pelo que ocorreu no campo conjugal.
A traição pode ferir, pode romper vínculos, pode destruir relações. Mas não mata crianças. Quem mata crianças é a violência. E, neste caso, violência profundamente marcada pelo machismo estrutural.
O que se viu não foi “um surto”. Foi a expressão extrema de lógica social: a ideia de que, quando um homem perde a mulher, perde também o sentido da própria existência. E tem o direito, inclusive, de arrastar tudo junto.
Quando os filhos viram arma
Especialistas têm chamado esse tipo de crime de violência vicária1: quando filhos são usados como instrumento de punição contra a mãe.
Não é impulso. É mensagem. Não é descontrole. É cálculo cruel. É o assassinato como recado final: “Você me traiu, então vou destruir o que você mais ama.”
Essa forma de violência revela componente ainda mais perverso do patriarcado: o homem não mata apenas por ódio, mas por punição. Ele não se vinga apenas da mulher. Ele transforma crianças em campo de guerra emocional.
Julgamento absurdo: culpa deslocada para a mulher
A tragédia, porém, não terminou com as mortes. Essa continuou — e continua — nas redes digitais e nos comentários públicos.
Como acontece repetidamente no Brasil, parte da sociedade correu para perguntar não “por que ele matou?”, mas “o que ela fez para provocar?”.
Essa inversão de culpa ou responsabilidade e de valores é mecanismo antigo do machismo: relativiza-se o crime masculino e amplifica-se a falha feminina.
A mulher traiu, logo “explicou-se” o assassinato. O homem matou, logo “entende-se” a dor dele.
É a lógica do patriarcado em estado bruto: o homem age, a mulher é responsabilizada.
“E se…” que desmonta a hipocrisia nacional
A pergunta é incômoda, mas necessária:
E se todas as mulheres traídas matassem os filhos e se suicidassem?
O Brasil entraria em colapso. Seria tratado como epidemia, como barbárie coletiva, como caos social.
Mas quando homens fazem isso, ainda há quem chame de “tragédia passional”, “desespero”, “não aguentou”.
Essa disparidade diz tudo: a violência masculina é culturalmente tolerada. A feminina, sequer imaginada. E isso porque mulheres, historicamente, não foram educadas para matar por honra. Mas para suportar humilhações em silêncio.
O assassinato por “posse” é fenômeno predominantemente masculino porque é o homem que, ainda hoje, é socializado para acreditar que perdeu tudo quando perde o controle sobre a mulher.
Machismo, bolsonarismo e a pedagogia da brutalidade
Não se trata apenas de caso isolado. Casos assim florescem num ambiente simbólico onde e em que:
- armas são exaltadas;
- feminismo é demonizado;
- direitos das mulheres são tratados como ameaça;
- violência é romantizada como força; e
- masculinidade se constrói na agressividade.
O bolsonarismo não inventou o machismo, mas o legitimou com linguagem pública: transformou preconceitos em discurso, brutalidade em identidade, ódio em opinião.
É a política do “homem de bem” que frequentemente termina como o homem que mata.
País que mata mulheres; e ainda as culpa
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública2 são claros: o Brasil segue registrando índices alarmantes de feminicídio. Cerca de 4 mulheres mortas por dia por razões de gênero, muitas vezes por ciúme ou pela não aceitação do fim da relação.
O caso de Itumbiara não foge dessa moldura: é a versão mais cruel do mesmo princípio: a mulher não pode sair, não pode romper, não pode desejar fora das relações conjugais. O homem, normalmente, pode.
E quando rompe, o patriarcado responde com violência.
O que está em jogo: romper a cultura da posse
A pergunta central não é sobre traição. É sobre mentalidade.
Enquanto homens forem ensinados que amor é posse, enquanto mulheres forem culpadas pela violência que sofrem, enquanto crianças forem usadas como instrumento de vingança, enquanto a sociedade buscar justificativas para crimes masculinos, novas tragédias virão.
Itumbiara não é “caso de família”. É caso do País. Caso de cultura. Caso de machismo estrutural que mata. E ainda encontra defensores.
A tragédia não foi a traição.
A tragédia foi e ainda é o Brasil ainda achar que, diante da violência masculina, a primeira pergunta deve ser: “Mas o que ela fez?”
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
__________________
1 A violência vicária, uma forma de violência de gênero ainda pouco conhecida no Brasil, ocorre quando o agressor utiliza os filhos como instrumento para prolongar o controle e o abuso sobre a mulher, especialmente após a separação, manifestando-se por meio de manipulação das crianças, ameaças de retirada da guarda, pensões alimentícias insuficientes, abuso emocional, alienação parental ou, em casos extremos, o assassinato dos filhos. Esse tipo de violência, profundamente ligado ao patriarcado, causa traumas psicológicos duradouros em mães e crianças, evidenciando como o direito das mulheres, das crianças e dos adolescentes ainda são tratados como “direitos menores”.
2 Os dados recentes confirmam a gravidade da situação narrada. O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, consolidando a média de 4 mulheres assassinadas por dia por razões de gênero, de acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública e análises do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
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