Supermercadistas correm na frente do Congresso e implementam escala 5x2

Brasília-DF, terça-feira, 16 de junho de 2026


Brasília, terça-feira, 16 de junho de 2026 - 17:20

Supermercadistas correm na frente do Congresso e implementam escala 5x2

Enquanto Senado e Câmara ainda discutem o fim da escala 6x1, redes de pelo menos 5 estados relevantes adotam jornadas com 2 folgas semanais para enfrentar a escassez de mão de obra e reduzir a rotatividade

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A realidade vai se impondo e a mudança já começou nesse segmento que emprega muitos trabalhadores. Trata-se de relação trabalhista intensa, que exige muitos dos trabalhadores. 

E o debate sobre o fim da escala de 6 dias de trabalho para 1 de descanso (6x1) continua mobilizando o Congresso Nacional, onde a redução da jornada semanal para 40 horas e a adoção da escala 5x2 ainda dependem da conclusão da tramitação legislativa. No entanto, parte do setor supermercadista decidiu não esperar.

Em movimento que ganha força no varejo alimentar, grandes redes supermercadistas já começaram a substituir a tradicional escala 6x1 por modelos que garantem 2 dias de folga semanais aos trabalhadores, sem redução salarial.

A mudança é impulsionada menos por razões ideológicas e mais por necessidade prática: a crescente dificuldade para contratar e reter funcionários em um dos segmentos que historicamente apresentam os maiores índices de rotatividade do mercado de trabalho brasileiro.

O fenômeno ocorre em contexto de desemprego mais baixo, ampliação das oportunidades de ocupação e disputa cada vez mais intensa por trabalhadores qualificados.


De São Paulo ao Distrito Federal

O movimento começou a ganhar escala em São Paulo e Minas Gerais, mas já se espalha para outras regiões do País.

Em São Paulo, grupos como Savegnago e Paulistão Atacadista figuram entre os pioneiros na substituição da escala 6x1 pela 5x2, associando a mudança à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e à retenção de talentos.

Em Minas Gerais, o Grupo Supernosso ampliou para dezenas de lojas próprias e da bandeira Apoio Mineiro projeto-piloto que previa 2 folgas semanais. O Supermercados BH também aderiu ao modelo, enquanto o Verdemar foi além, implementando formatos que reduzem a carga horária mensal e ampliam os períodos de descanso.

No Espírito Santo, a mudança vem sendo liderada pelo Grupo Coutinho, controlador das bandeiras Extrabom, Extraplus e Atacado Vem. O projeto começou em unidades da Grande Vitória e avançou para cidades do interior, como Colatina. 

A expectativa é beneficiar cerca de 5 mil trabalhadores. A empresa decidiu absorver os custos operacionais da mudança, apostando na melhoria das condições de trabalho como ferramenta de atração e retenção de profissionais.

No Distrito Federal, o destaque é o Atacadista Super Adega. A rede iniciou a adoção da escala 5x2 na unidade do Guará 2 e vem expandindo gradualmente o modelo para as demais lojas, incluindo a nova unidade de Samambaia. A empresa transformou as 2 folgas semanais em diferencial competitivo, utilizando o benefício como argumento de recrutamento e valorização profissional.

O Rio de Janeiro também registra experiências em andamento. Redes regionais como o Supermercado do Frade e o Grupo Uni-X iniciaram a implementação da nova jornada em unidades localizadas principalmente na Região dos Lagos e no litoral fluminense.


Escassez de mão de obra
muda a lógica empresaria
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Durante décadas, a escala 6x1 foi considerada praticamente inevitável no setor supermercadista devido ao funcionamento contínuo das lojas. A mudança em curso revela alteração importante nessa lógica.

Empresas passaram a enxergar o descanso ampliado como instrumento para reduzir desligamentos, diminuir custos de recrutamento e treinamento e aumentar a produtividade das equipes.

A alta rotatividade sempre esteve entre os principais desafios do varejo alimentar. A substituição constante de funcionários gera custos elevados, perda de conhecimento operacional e dificuldades para manter a qualidade do atendimento.

Nesse cenário, oferecer 2 folgas semanais tornou-se vantagem competitiva cada vez mais relevante.


Setor busca transição gradual

O avanço das mudanças também começou a repercutir nas entidades representativas do segmento. A discussão deixou de ser apenas estratégia isolada de recursos humanos e passou a integrar o debate institucional do setor.

A Abras (Associação Brasileira de Supermercados) e outras entidades empresariais têm manifestado apoio a modelos de jornada que ampliem o descanso dos trabalhadores, desde que a implementação ocorra de forma gradual e preferencialmente por meio de negociações coletivas.

A preocupação central está nos impactos sobre pequenas e médias empresas, que possuem menor capacidade financeira para ampliar quadros de pessoal e reorganizar escalas de trabalho.

Por isso, as entidades defendem processos de transição que conciliem melhoria das condições de trabalho com sustentabilidade econômica das operações.


Teste para debate nacional

A expansão da escala 5x2 para estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal e Rio de Janeiro produz efeito político relevante sobre a discussão em Brasília, no Congresso Nacional.

Enquanto parte do empresariado argumenta que mudanças legais podem elevar custos e exigir novas contratações, grandes redes do setor demonstram que a reorganização das jornadas pode ser implementada como estratégia de gestão de pessoas.

O movimento não elimina os desafios operacionais, mas enfraquece a percepção de que a escala 6x1 é condição inevitável para o funcionamento do varejo.

Na prática, o setor supermercadista tornou-se laboratório do debate nacional sobre a jornada de trabalho. 

E, antes mesmo de o Congresso concluir a decisão, parcela crescente do mercado parece ter chegado à conclusão de que oferecer mais tempo de descanso deixou de ser apenas reivindicação trabalhista para se transformar em necessidade empresarial.









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